O consultório de uma psicóloga infantil não é um lugar para se largar a criança e buscar quando puder. A presença dos pais precisa ser ativa na hora de entregá-lá e na hora de buscá-la. Certamente a criança vai demandar atenção nesse processo e encenar alguma situação simbólica que seja valorizada pela tarapeuta e pelos pais. Até os adultos fazem isso: marcam, desmarcam, atrasam, vezes entram rapidamente para a sala, outras tantas se arrastam para dentro do consultório. Por que as crianças não o fariam?
Nem sempre é fácil ou prazeroso o encontro com nós mesmos e não existe superbrinquedo que resolva. A criança não deve ser seduzida ao consultório, mas conscientizada sobre o tratamento. Os pais, por sua vez, precisam confiar no profissionalismo e na técnica disponível.
A regra fundamental de qualquer tratamento psicanalítico é a associação livre, ou seja, a verbalização da associação de ideias que surgem de forma espontânea à mente, por mais insignificantes que pareçam. Este é o caminho para o inconsciente e os ferimentos que lá habitam. Vez ou outra uma mãe recomenda ao seu filho: “não deixe de falar sobre aquele assunto com sua psicóloga”. Nem sempre será possível e nem por isso o tratamento está errado.
“Mas a criança, então, só brinca e não fala sobre tudo que estamos passando?”. A criança brinca porque é assim que ela se comunica e entra em assuntos delicadíssimos mesmo sem se dar conta disso. A analista, por sua vez, acompanha, aceita qualquer tipo de brincadeira sem moralismos, sem intenção pedagógica, põe-se a analisar tudo que a criança está falando sem falar, brincando. As próprias intervenções surgem na brincadeira.
É precioso confiar (na profissional, na criança, na técnica) e não esperar que uma criança não funcione como uma criança.
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